RADAR LCA | Saúde mental, novas formas de trabalhar e mudanças no comportamento do viajante estão ampliando a discussão sobre mobilidade corporativa.
Uma viagem corporativa começa antes do embarque.
Começa na escolha do horário do voo.
Na quantidade de conexões.
No tempo entre o desembarque e a primeira reunião.
Na localização do hotel.
Duração da agenda e na frequência com que aquele profissional precisa se deslocar.
E até no tempo que terá para se recuperar antes de voltar à rotina.
Durante muito tempo, políticas de viagens foram construídas principalmente para responder a questões de custo, compliance e controle.
Esses pilares continuam fundamentais. Mas uma nova discussão ganha espaço nas empresas: as condições em que os colaboradores viajam também deveriam fazer parte da gestão?
A pergunta ganha ainda mais relevância diante das mudanças recentes relacionadas à saúde mental no ambiente de trabalho no Brasil.
Saúde mental entrou definitivamente na agenda das empresas
Desde 26 de maio de 2026, está em vigor a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Na prática, as organizações precisam olhar também para características e condições da organização do trabalho que possam representar fatores de risco.
Entre os exemplos apresentados pelo próprio Ministério do Trabalho e Emprego estão situações como excesso de demandas e sobrecarga, assédio e falta de suporte no trabalho.
A mudança amplia uma discussão que já vinha ganhando espaço no ambiente corporativo: saúde e segurança no trabalho não dizem respeito apenas aos riscos físicos.
A forma como o trabalho é organizado também importa.
E, para profissionais que viajam frequentemente, a mobilidade faz parte dessa organização.
O que uma política de viagens tem a ver com isso?
Uma política de viagens não substitui, nem deve substituir, uma política de saúde e segurança do trabalho.
Mas ela pode influenciar as condições em que determinados profissionais exercem suas atividades.
Imagine algumas situações comuns:
Um colaborador embarca no primeiro voo da manhã depois de sair de casa durante a madrugada e inicia uma sequência de reuniões logo após o desembarque.
Outro retorna em um voo noturno depois de um dia inteiro de trabalho e precisa estar novamente disponível na manhã seguinte.
Um executivo passa vários dias consecutivos entre aeroportos, hotéis, reuniões e diferentes fusos horários.
Uma equipe precisa viajar repetidamente para atender uma operação distante.
Uma tarifa mais barata exige horas adicionais de conexão e deslocamento.
Individualmente, essas decisões podem parecer apenas logísticas.
Quando se tornam recorrentes, entretanto, vale observar o impacto que podem gerar sobre a experiência e as condições de trabalho do viajante.
A tarifa mais barata é sempre a melhor decisão?
Esse é um bom exemplo de como custo e experiência podem entrar em conflito.
Imagine duas opções.
- Uma passagem possui tarifa menor, mas exige uma conexão longa, aumenta significativamente o tempo de deslocamento e faz o profissional chegar ao destino próximo do início de uma agenda importante.
- A outra custa mais, mas reduz horas de viagem e permite um período adequado entre chegada e compromisso
Qual delas representa o melhor custo para a empresa?
A resposta nem sempre estará no valor da passagem.
Produtividade, tempo, segurança, necessidade da viagem e impacto sobre o colaborador também podem fazer parte da análise.
Isso não significa eliminar critérios financeiros.
Significa ampliar a definição de eficiência.
O viajante também mudou
Ao mesmo tempo em que saúde mental ganha espaço nas discussões corporativas, o comportamento de quem viaja a trabalho também está mudando.
Inteligência artificial, aplicativos, self-booking e experiências digitais aumentaram a expectativa por autonomia, rapidez e personalização.
O bleisure, combinação entre compromissos profissionais e períodos de lazer, também ganhou espaço entre os viajantes.
Essas mudanças mostram que a experiência corporativa já não acontece isolada da forma como as pessoas organizam suas vidas.
O desafio das empresas passa a ser equilibrar:
- autonomia e controle;
- eficiência e experiência;
- custo e produtividade;
- necessidade do negócio e bem-estar de quem viaja.
Uma política muito rígida também cria pontos cegos
Políticas continuam sendo essenciais para garantir governança.
Mas regras que não acompanham a realidade da operação podem gerar comportamentos paralelos, excesso de exceções ou decisões que parecem econômicas no curto prazo, mas criam outros impactos.
Por isso, vale perguntar:
- A política estabelece critérios apenas de preço ou também considera tempo de deslocamento?
- Existem parâmetros para viagens muito longas?
- Como são tratadas viagens em finais de semana?
- Existe atenção aos horários de chegada e início das agendas?
- Viagens consecutivas são acompanhadas?
- O processo permite exceções justificadas?
- Bleisure está regulamentado?
- Os colaboradores sabem a quem recorrer quando uma viagem se torna excessivamente desgastante?
São perguntas que ampliam a política de viagens para além da reserva.
Dados também podem revelar sinais importantes
Business Intelligence não precisa mostrar apenas quanto uma empresa gasta.
Os dados da operação também podem ajudar a identificar padrões.
Colaboradores com alta frequência de deslocamentos.
Viagens consecutivas.
Rotas excessivamente longas.
Alta incidência de alterações.
Compras emergenciais recorrentes.
Departamentos com grande concentração de viagens.
Horários e comportamentos que merecem uma análise mais detalhada.
Essas informações não diagnosticam saúde mental e não devem ser utilizadas com essa finalidade.
Mas podem ajudar a empresa a identificar características da sua operação que merecem ser avaliadas.
É uma mudança importante de perspectiva.
Em vez de olhar apenas para: “Quanto estamos gastando?” a gestão também pode perguntar: “Como estamos fazendo nossas pessoas viajarem?”
Saúde mental não significa simplesmente oferecer benefícios
Em 2024, o Brasil também instituiu, por meio da Lei nº 14.831, o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental.
Entre as diretrizes previstas estão ações relacionadas à promoção da saúde mental, ambiente de trabalho seguro e saudável e incentivo ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A certificação é voluntária, mas a legislação reforça uma transformação mais ampla na agenda corporativa.
Bem-estar não deve ser tratado apenas depois que um problema aparece.
Também envolve observar as condições em que o trabalho acontece.
E, para quem viaja a trabalho, isso inclui a própria jornada.
A política de viagens também precisa evoluir
Uma política moderna pode ajudar a estabelecer critérios para que a mobilidade seja financeiramente eficiente, operacionalmente viável e adequada às necessidades de quem viaja.
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