A inteligência artificial já entrou na gestão de viagens corporativas. A questão agora é: ela entrou pela porta da frente?
A inteligência artificial está mudando rapidamente a forma como profissionais pesquisam destinos, comparam voos, encontram hotéis, montam roteiros e tomam decisões durante uma viagem.
Mas uma nova tendência começa a chamar a atenção dos gestores de viagens: colaboradores utilizando suas próprias ferramentas de IA para planejar viagens corporativas, fora dos sistemas e canais aprovados pelas empresas.
O movimento ganhou um nome: Shadow AI ou IA paralela.
Durante a GBTA Convention 2026, em Chicago, a Amadeus apresentou dados do estudo Tailored Horizons que ajudam a dimensionar esse comportamento.
Segundo a pesquisa, 62% dos viajantes corporativos norte-americanos já utilizaram uma ferramenta própria de inteligência artificial para planejar ou reservar uma viagem de trabalho, em vez de recorrer exclusivamente às ferramentas aprovadas pela empresa ou ao gestor de viagens.
O dado revela uma mudança importante.
A discussão já não é mais sobre se a inteligência artificial será utilizada nas viagens corporativas.
A pergunta é: como garantir que ela seja utilizada sem criar novos pontos cegos para a gestão?
O que é IA paralela?
IA paralela, ou Shadow AI, é o uso de ferramentas de inteligência artificial fora dos ambientes, sistemas e processos oficialmente aprovados pela organização.
Na prática, imagine um colaborador que precisa viajar a trabalho. Em vez de iniciar sua jornada pelo canal corporativo, ele acessa uma ferramenta de IA de sua preferência e pergunta:
“Qual é o melhor voo para chegar a determinado destino?”
“Qual hotel você recomenda próximo ao evento?”
“Existe uma alternativa mais barata para esse trajeto?”
“Monte o melhor roteiro para minha viagem.”
Para o viajante, é simples, rápido e conveniente.
Para a empresa, entretanto, uma decisão aparentemente inofensiva pode abrir uma série de questões.
- A ferramenta conhece a política de viagens da organização?
- Considera os acordos negociados com fornecedores?
- Respeita limites de orçamento e regras de aprovação?
- As opções apresentadas estão dentro dos critérios de segurança da empresa?
E, principalmente: a empresa continua tendo visibilidade sobre as decisões tomadas?
Quando a conveniência cria um novo ponto cego
O avanço da IA paralela expõe um desafio que vai além da tecnologia.
Ele envolve governança.
Quando decisões relacionadas às viagens começam a acontecer fora dos canais corporativos, a organização pode perder parte da visibilidade necessária para controlar despesas, acompanhar seus viajantes e garantir o cumprimento de suas políticas.
Isso pode afetar diferentes dimensões da gestão:
- Compliance com a política de viagens;
- Visibilidade e rastreabilidade das despesas;
- Aplicação dos acordos negociados com fornecedores;
- Controle orçamentário;
- Proteção de informações corporativas;
- Segurança e privacidade dos viajantes;
- Duty of care;
- Qualidade e consolidação dos dados utilizados pela gestão.
O desafio, portanto, não é impedir que as pessoas utilizem inteligência artificial. É garantir que a inovação aconteça dentro de uma estrutura de gestão capaz de preservar controle, segurança e governança.
O comportamento do viajante está mudando mais rápido do que os processos
Existe outro ponto importante nos dados apresentados pela Amadeus. O crescimento da IA paralela não significa necessariamente que os colaboradores estejam tentando ignorar as políticas corporativas.
Existe uma busca evidente por agilidade, personalização e autonomia. A inteligência artificial permite pesquisar, comparar alternativas e receber respostas contextualizadas em poucos segundos. Isso cria uma nova expectativa sobre a experiência de uma viagem corporativa.
Se o ambiente disponibilizado pela empresa for excessivamente complexo, lento ou pouco intuitivo, o colaborador pode buscar alternativas fora dele. Para os gestores, surge então uma reflexão importante:
As ferramentas oficiais da empresa estão acompanhando a experiência que os colaboradores já encontram fora do ambiente corporativo?
Governança não pode significar simplesmente criar mais barreiras. O desafio passa a ser oferecer autonomia sem perder controle.
O gestor de viagens ganha uma nova responsabilidade
A inteligência artificial também começa a transformar o próprio papel dos profissionais responsáveis pela mobilidade corporativa.
Segundo o estudo apresentado pela Amadeus, entre as prioridades apontadas para os gestores de viagens estão:
- Garantir que ferramentas de IA cumpram as políticas corporativas;
- Estabelecer regras e limites para recomendações geradas por IA;
- Proteger dados e a privacidade dos viajantes;
- Personalizar as opções disponíveis;
- Continuar negociando estrategicamente com fornecedores.
Isso significa que o gestor deixa de olhar apenas para reservas, tarifas e fornecedores.
Ele passa também a participar da governança da tecnologia aplicada à mobilidade.
- Quais ferramentas podem ser utilizadas?
- Quais informações podem ser compartilhadas?
- Como a IA acessará políticas e dados corporativos?
- Quais decisões podem ser automatizadas?
- Quais precisam de aprovação?
- Onde deve existir supervisão humana?
São perguntas que começam a fazer parte da nova gestão de viagens corporativas.
IA ou pessoas? O futuro não parece exigir essa escolha
Outro dado da pesquisa ajuda a desmontar uma discussão recorrente sobre tecnologia e atendimento humano.
Quando alguma coisa dá errado durante uma viagem corporativa, 41% dos entrevistados afirmam confiar mais em um consultor ou gestor de viagens para encontrar a melhor solução, enquanto 20% depositariam maior confiança exclusivamente em um assistente de IA. Outros 39% dizem confiar igualmente nos dois. Além disso, apenas 4% acreditam que os gestores de viagens deixarão de ser necessários.
A leitura é importante. Quanto mais a tecnologia evolui, mais o trabalho humano tende a migrar das atividades operacionais para decisões de maior complexidade.
A IA pode pesquisar, pode comparar, pode personalizar, pode automatizar. Mas quando surgem cancelamentos, alterações inesperadas, problemas com fornecedores, mudanças de rota, riscos ou situações que exigem avaliação de contexto, a capacidade humana continua desempenhando um papel decisivo.
Tecnologia entrega velocidade. Gestão transforma informação em decisão.
A IA também pode criar riscos fora da gestão de viagens
O fenômeno não está restrito ao turismo corporativo.
O relatório Cloud and Threat Report 2026, da Netskope, mostra que 47% dos usuários de inteligência artificial generativa analisados, ainda utilizam aplicativos pessoais de IA.
O estudo também aponta crescimento nos incidentes envolvendo envio de informações confidenciais para essas ferramentas.
No Brasil, o cenário merece atenção adicional: o relatório da Netskope aponta que 52% das pessoas que utilizam aplicações de IA generativa ainda recorrem a aplicações pessoais, embora o uso de soluções gerenciadas pelas próprias organizações esteja avançando.
Isso reforça uma questão importante para diferentes departamentos: Tecnologia, Segurança da Informação, Compras, Financeiro, RH e Travel: quais informações corporativas estão sendo inseridas em ferramentas que a empresa não controla?
No universo das viagens, isso pode envolver dados de colaboradores, itinerários, informações financeiras, políticas internas, agendas e detalhes sobre deslocamentos corporativos.
A discussão sobre IA em viagens, portanto, também é uma discussão sobre governança de dados.
Sua política de viagens está preparada para a inteligência artificial?
Durante muito tempo, políticas de viagens foram estruturadas principalmente para responder perguntas como:
- Qual classe aérea pode ser utilizada?
- Qual o limite de diária?
- Com quanto tempo de antecedência uma viagem deve ser comprada?
- Quem precisa aprovar uma solicitação?
Essas regras continuam importantes.
Mas talvez uma nova geração de perguntas precise entrar nessa discussão:
- Quais ferramentas de IA estão autorizadas?
- Colaboradores podem utilizar IA para pesquisar viagens?
- Quais informações podem ser inseridas nessas ferramentas?
- Como recomendações de IA devem respeitar a política corporativa?
- Como garantir que reservas permaneçam nos canais oficiais?
- Como preservar a rastreabilidade das decisões?
- Quem acompanha e revisa essas regras?
A inteligência artificial adiciona uma nova camada à governança da mobilidade corporativa.
Como a LCA apoia essa evolução
Na LCA, tecnologia não é tratada como um fim. Ela faz parte de uma estrutura de gestão que conecta autonomia, dados, processos, governança e pessoas.
A gestão da mobilidade corporativa precisa acompanhar as novas expectativas dos viajantes sem abrir mão daquilo que as empresas precisam preservar: visibilidade, controle, segurança e eficiência.
Por isso, nossa atuação combina tecnologia, Business Intelligence, integração de processos, políticas corporativas, acompanhamento da operação e gestão consultiva.
Enquanto a tecnologia simplifica atividades e amplia a autonomia do viajante, profissionais especializados acompanham cenários, interpretam dados e apoiam decisões de maior complexidade.
O futuro das viagens corporativas não será menos tecnológico. Será mais governado.
A IA paralela traz um alerta importante para as empresas. Proibir tecnologia dificilmente será suficiente para conter um comportamento que já está acontecendo. O caminho passa por incorporar inovação aos processos corporativos com regras claras, integração, segurança e uma experiência que faça sentido para quem viaja.
A pergunta, portanto, deixa de ser: “Nossa empresa deveria utilizar inteligência artificial nas viagens corporativas?” E passa a ser: “Nossa empresa está preparada para governar uma tecnologia que os colaboradores já começaram a utilizar?”
A inteligência artificial pode transformar a experiência de quem viaja. Mas inovação sem visibilidade pode criar novos pontos cegos.
Na nova mobilidade corporativa, autonomia e governança precisam viajar juntas.
Quer entender como evoluir a gestão de viagens da sua empresa diante das novas tecnologias? Converse com os especialistas da LCA e descubra como integrar tecnologia, inteligência de dados e gestão especializada à sua operação.
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